Dica de leitura gastronômica: O Sal é um Dom – Receitas de Dona Canô

Dica de leitura gastronômica

E ai? Vocês já estavam com saudades das indicações literárias do blog? Acharam que eu tinha desistido de passar para vocês um pouquinho das leituras que mais me inspiram na cozinha? Pois pensaram errado! O problema dos atrasos nas postagens aconteceu porque esse final de ano foi particularmente corrido. No entanto agora estou aqui, começando o ano com uma super dica de leitura gastronômica para vocês. E quando digo: super dica de leitura gastronômica vocês podem levar a sério. Vamos começar o ano com ninguém menos do que a icônica Dona Canô.

Quem é Dona Canô?

Eu acredito que muitos por ai sabem quem é a Dona Canô, mas para aqueles desavisados, vamos lá. Dona Canô é a mãe dos músicos Caetano Veloso e Maria Bethânia. Ela faleceu aos 105 anos em 2012. A meu ver, é totalmente plausível dizer que a Dona Canô foi também um ícone cultural no Brasil. Não que ela se considerasse como tal. No geral, quando ela era perguntada a respeito da fama, ela dizia que “apenas ficou conhecida por causa de dois dos seus filhos que nunca se esqueceram de onde vieram e nem da mãe que tem”.

Dica de leitura gastronômica

Dona Canô – Protagonista da minha dica de leitura gastronômica de hoje – Foto do Livro O Sal é um Dom – pág. 25

Além de Caetano e Bethânia, Dona Canô teve mais seis filhos, dentre os quais, a Mabel Velloso, autora do livro da minha dica de leitura gastronômica de hoje. Essa senhorinha simpática foi uma ilustre cidadã de Santo Amaro da Purificação, cidadezinha que fica no Recôncavo Baiano.

Mabel Velloso – Idealizadora do livro – Página 41

A culinária do Recôncavo Baiano 

Antes de falar sobre a culinária do Recôncavo Baiano, vamos entender o que vem a ser o Recôncavo Baiano. Esta é a região que fica em torno da Baía de Todos-os-Santos. Abrange não só o litoral, mas também toda a região do interior circundante à Baía. Geograficamente a zona do Recôncavo inclui também a região metropolitana de Salvador. No entanto, o termo é mais comumente usado para se referir às cidades próximas à Baía de Todos-os-Santos, limitando-se ao interior, deixando de fora, portanto a capital do estado. Santo Amaro da Purificação fica bem no meio desta região.

Delimitação do Recôncavo baiano. Salvador está na pontinha mais escura no Oceano Atlântico. Santo Amaro fica mais a norte

A culinária do Recôncavo é aquela que comumente nos vem em mente quando falamos em culinária baiana. Pois é, pessoal. A Bahia é um estado grande demais, mas normalmente nos prendemos àquela imagem gastronômica meio Jorge Amado com suas Dona Flor e Gabriela, exímias cozinheiras. No entanto, não é em todos os lugares do estado que as pessoas se fartam de delícias do mar preparadas com azeite de dendê. Na Bahia há outras realidades gastronômicas que são tão saborosas e ricas quanto a do Recôncavo. Mas hoje, vamos falar mais um pouco sobre essa culinária baiana que vive no nosso imaginário, pois o tema da vez é a Dona Canô e suas delícias traduzidas por Mabel Velloso.

A minha dica literária gastronômica de hoje

Uma mistura de África, Europa e Brasil

Essa tradição culinária é em parte uma herança bem honrosa da presença africana no Brasil. Se vocês pensam que o azeite de dendê é uma iguaria típica brasileira, estão redondamente enganados. Ele é fabricado a partir do processamento dos frutos do dendezeiro, uma palmeira que chegou no Brasil junto das primeiras levas de escravos africanos. Existem, por exemplo, vários pratos angolanos que trazem esse ingrediente em seu preparo.

Contudo, a África não é a única presença marcante na culinária do Recôncavo Baiano. A herança indígena também está muito presente. Exemplo disso são os pratos a base de mandioca, macaxeira ou ainda o aipim. Nesta dica literária gastronômica de hoje temos excelentes exemplos de pratos com aipim.

Bolo de aipim, receitinha está na minha dica de leitura gastronômica de hoje. E esse bolo é indecente de bom!

Faço menção especial aqui à receita de bolo de aipim de Dona Canô (página 55). Simples, fácil de ser preparada e riquíssima em sabor. Outra influência que encontramos nessa culinária é a presença europeia, predominantemente portuguesa que aqui nas receitas de Dona Canô se traduz, por exemplo, nos ensopados.

Mas vamos à dica literária gastronômica do dia?

Pois bem, vamos à nossa dica literária gastronômica de hoje? Para início de conversa, quem tem dificuldades com o manejo das panelas pode ficar aliviado. É que a linguagem que a Mabel Velloso usou para dar as receitinhas de sua mãe é tão fácil, que até parece que estamos ali na cozinha, ao lado de Dona Canô aprendendo a cozinhar com ela. E as receitas são de simplicidade diretamente proporcional ao amor de uma mãe que cozinha para a sua prole, ou seja: um luxo ao alcance de todos aqueles que tem bom coração e, claro, muita fome.

O livro é lindo, traz registros fotográficos de família, relatos de causos, enfim, nos leva ao mundo íntimo da família Velloso. No finalzinho, há um glossário para que possamos entender modos de dizer particulares de Dona Canô que estão presentes nas receitas. Os temperos, por exemplo, são “machucados” (amassados) antes de irem para os preparos. “Rechear” na linguagem de Dona Canô, significa refogar até “chiar”. E quando uma comida “faz cara de velho”, significa que no meio da panela ela se encolheu e ficou enrugada. As “mangas pecas”, são aquelas que “pecaram”, e não amadureceram. O “azeite doce”, é aquele que conhecemos como azeite de oliva, e assim vai!

Ingredientes regionais

Uma das coisas que vai chamar muita atenção dos leitores não baianos são os pratos que levam ingredientes bem regionais. Talvez o melhor exemplo disso seja a maniçoba. Como bem disse Mabel Velloso, “a comida que tem a cara do Recôncavo é a maniçoba”. Na introdução da receita Mabel explica que este prato, de origem indígena, é feito à base de folhas de aipim moídas, cozidas e acrescidas de carnes de porco, boi e outros ingredientes salgados e defumados. Outros ingredientes regionais como a massa puba, o charque, o sururu, o mapé, e frutas como o caju, o jambo e o araçá mirim também dão o ar da graça por aquelas páginas.

Jambo rosa

Definitivamente eu fiquei encantada com a leitura deste livro. Para ser honesta, eu o li em uma sentada e fiquei com água na boca diante de grande parte das receitas. Não que isso fosse algo tão difícil assim, né? São pouquíssimas as coisas nessa vida que não gosto de comer! Portanto, somado a isso o fato de eu ter um sangue meio nordestino correndo nas veias, calculem ai a fome que este livro me deu!

Comida: um meio universal de comunicação

Mas fiquei com fome não só por causa das comidas apetitosas de Dona Canô. Este livro me deixou fascinada e faminta por conta da riqueza das histórias que envolvem cada uma das receitas. Eu sempre digo que algo que me define é a comunicação. Antes de ser professora, jornalista, ou blogueira, sou acima de tudo uma comunicadora. E enxergo comunicação em tudo aquilo que nos cerca, em especial, na comida. Não sei se vocês conseguem visualizar isso, parece a principio uma frase meio chavão. No entanto para mim faz muito sentido dizer que a comida é uma poderosa declaração de amor de quem cozinha para quem come.

Dica de leitura gastronômica de hoje: os segredinhos de Dona Canô

E foi essa delicadeza, de mostrar como a Dona Canô declarava diariamente seu amor para toda a família e todos aqueles que se sentavam à sua mesa, que fez com que eu definitivamente colocasse esse livro entre os meus queridinhos na literatura gastronômica. Os ensinamentos de Dona Canô atravessaram gerações, e para mim é muito emocionante ler uma homenagem tão bonita feita por uma filha sobre a história de sua família passando pela mesa.

Codificando na escrita o “saber fazer”

A fácil leitura do livro se explica através de uma característica que ao mesmo tempo é didática e extremamente rica para quem se interessa em estudar a gastronomia brasileira: Mabel Velloso fez uma codificação escrita das receitas de sua mãe que até então estavam somente na oralidade, no “saber fazer”. Em um dado momento do livro, inclusive, ela diz que não se lembra de ter visto em sua casa cadernos de receitas. Que Dona Canô fazia tudo de cabeça, e quando alguém lhe perguntava a receita, ela simplesmente pensava um pouquinho e passava os ingredientes e as proporções a quem pedia.

Mabel Velloso alinhava cada um desses “de comê” descritos no livro (receitas) com histórias de família. Os próprios nomes dos pratos passam muito pela relação de afetividade deles com o alimento. Vários deles, por exemplo, ganharam “apelidos” carinhosos como o “Bolo da Glória” (pág.56), “Cocada para Neto” (pág. 94) ou ainda o “Bolo de Caixa” (pág. 51).

Tesouros de família

Uma das coisas mais bonitas que vi neste livro foi o resgate respeitoso do conhecimento da ancestralidade. Nesse mundo gastronômico atual tão cheio de regras e técnicas, percebemos no relato e nas receitas descritas por Mabel Velloso que o ato de alimentar aqueles que amamos é simples. E esse é também um ato passado adiante entre mulheres de geração em geração. Afinal de contas, é a mulher que nutre suas crias quando ainda são pequenas, não é mesmo? Pois são essas mulheres que continuam a nutrir suas famílias com o passar dos anos, de geração em geração.

Mabel nos revelou em “O Sal é um Dom” segredos preciosos, histórias que emocionam, testemunhos de amor, carinho, simplicidade e cuidado traduzidos em sabores, cores e texturas. Muito cuidado com esse livro: assim que vocês o abrirem, não posso garantir que não será um caso de amor avassalador às primeiras palavras. Mas querem saber? Vale a pena se jogar! Vocês verão ao longo da leitura que as receitas que mais tocarão o coração de vocês não requerem nada mais além dos ingredientes que vocês certamente tem na geladeira, cuidado, amor e paciência.

Dona Canô, protagonista da dica de leitura gastronômica de hoje

Por fim, convido vocês a seguirem o exemplo de Dona Canô e cozinharem para aqueles que vocês amam. Ela chegou aos 105 anos, e eu sei lá, mas desconfio que o grande segredo para tamanha longevidade tenha sido essa comida deliciosa que ela preparava, temperada com muito amor, e compartilhada com aqueles que ela sempre amou. Não custa nada tentar, não é mesmo?

Até a próxima!

Ficha técnica:

Título: O Sal é um Dom – Receitas de Dona Canô
Autor: Mabel Velloso – Fotos: Maria Sampaio – Apresentação: Maria Bethânia
Editora: Leya
Número de Páginas: 127

Clique aqui para mais Dicas Literárias e Eventos

About Nicole Delucca Linhares

Uma jornalista obcecada pelo lado bom da vida que está sempre em busca de experiências românticas para dividir com o mundo. Apaixonada por comidinhas, pores-do-sol, plantas, livros, cinema, viagens e teatro. É também professora de italiano, cozinheira para todas as horas, filosofa de boteco e, por fim, uma mistura doida de Minas, Itália e Piauí!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *