Sangue, Ossos e Manteiga: A Chef Gabrielle Hamilton por ela Mesma

Sangue Ossos e Manteiga foi um livro que me marcou na área gastronômica. Eu o ganhei no Natal de 2012. Foi um presente do meu tio que estudava gastronomia. Eu já tinha ido à Nova Iorque, mas naquela época não sabia ainda da existência da Chef Gabrielle Hamilton. Quisera eu ter sabido! Eu não teria titubeado nem um segundo e teria ido ao seu restaurante Prune, que foi inaugurado no exato ano em que fui à Big Apple pela primeira vez.

O livro chamou minha atenção já na capa. Primeiramente, aquele tom vermelho vivo e a cabeça de galinha ao contrário já causam certo impacto. Depois, o próprio título é um chamariz nada sutil para aquilo que nos aguarda durante a leitura, principalmente o seu subtítulo: “A educação involuntária de uma chef relutante”. No entanto, preciso dizer que o que me fez abrir o livro imediatamente e só largá-lo após o fim da leitura foi o que veio escrito logo abaixo do nome da autora. Os dizeres são o seguinte: “Magnífico. Simplesmente o melhor relato de uma chef em todos os tempos. O melhor”. As palavras nos incentivam a seguir adiante, mas quem as assina praticamente nos obriga à leitura: Anthony Bourdain. Acho que dispensa apresentações, né?

Sangue ossos e manteiga: gastronomia nua e crua

Pensem ai em um anti-herói, nesta caso, uma anti-heroína. Esse é o caso de Gabrielle Hamilton. Uma personalidade forte. Uma história de vida cheia de loucuras e excessos. Bem no estilão sexo, drogas e rock n’ roll. A autora não tem papas na língua e dá a real sobre o que foi a construção de sua carreira como chef. Ela saiu do nada. Tinha tudo para dar errado. Entrou por acaso na gastronomia por necessidade. E no meio disso tudo, acabou descobrindo uma verdadeira vocação.

Foto de divulgação do livro

Esse livro não é como os outros que indiquei aqui. Nele vocês não encontrarão, por exemplo, relatos assim, tão afetivos com receitinhas de família. Sim, neste livro existe afetividade. Principalmente quando Gabrielle se lembra de sua mãe. Ela era uma francesa que conseguia fazer mágicas na cozinha. Transformava tudo aquilo que fosse comestível no quintal de casa em manjares dos deuses, evitando desperdícios e alimentando assim toda a família. De certa forma, há afetividade também quando Gabrielle se lembra da festa que seu pai, um cenógrafo meio sonhador, dava todo ano para a vizinhança.

A sua relação com seu marido, seus filhos e sua sogra também nos remetem a uma pontadinha de sensibilidade no coração de Gabrielle. No entanto, essa afetividade fofinha não é muito o espírito da chef. A sua personalidade é um pouco mais subversiva e a sua forma de amar o mundo se reflete principalmente na sua comida.

Sinceridade

A tônica que toma conta da história é a sinceridade crua da autora com relação à sua vida. Drogas, homossexualidade, pequenos delitos e intemperanças são relatados por Gabrielle com naturalidade e desprendimento. É que ela não tem vergonha de falar a respeito dos degraus que a levaram onde ela está hoje. A sua formação de chef de fato foi involuntária. A sua vida a levou para a gastronomia em função da sobrevivência. Contudo, no meio deste caminho, com todas as dificuldades e desditas, ela encontrou na comida aquilo que realmente fazia sentido em sua vida.

Prune – Foto de divulgação

Mas não pensem que essa seja uma história de Cinderela da gastronomia. A vida da chef não é um conto de fadas e mesmo ela tendo alcançado vitórias, o livro transparece que a luta não terminou. Em Sangue Ossos e Manteiga vocês terão uma amostra do quão pouco glamour existe nos bastidores da gastronomia, ou seja: Nada é fácil. Tudo é fruto de muito, muito trabalho. É aquela história: no pain, no gain.

Aliado a isso, vemos também uma coragem absurda de Gabrielle para começar a fazer algo diferente em sua vida. O momento em que ela decide que vai abrir o Prune dá um super frio na nossa barriga. Ela nunca tinha sido chef em nenhum outro restaurante antes. Ela não tinha muito dinheiro e iria começar tudo do zero. Segundo as suas próprias palavras no livro: “Simplesmente pulara no meio do fogo e abrira um restaurante próprio sem nunca ter sido chef em outro.”

Gabrielle

A narrativa do livro é uma delícia. Leitura que nos prende, nos faz querer mais. Ao mesmo tempo em que sofremos com as dificuldades de Gabrielle, nos envolvemos em seus relacionamentos íntimos, e também rimos de situações tragicômicas que ocorrem na sua caminhada. Percorremos assim a sua vida em sua companhia desde a infância, numa casa em ruínas carbonizadas numa fábrica de seda do século XIX na zona rual da Pensilvânia, até o nascimento de seus filhos. Ela nos relata fatos decisivos de sua história que a marcaram profundamente e a fizeram empreender uma busca incansável por aquilo que faria sentido na sua vida. A partir do divórcio de seus pais, ela sai de casa e se transforma aos poucos e sem perceber na chef Gabrielle Hamilton.

Foto de divulgação

Preparem-se, portanto, para conhecer uma personalidade extraordinária, perfeccionista que se joga de cabeça no que faz e segue celeremente adiante abraçando o desconhecido. Chamo particular atenção para a forma como ela descreve os pratos franceses e italianos que fizeram e fazem parte de sua vida. Ela os descreve minuciosamente. Juro: dá vontade de comer tudo! Em suas palavras transpira conhecimento, sensibilidade para os sabores e texturas e acima de tudo, muito respeito pelo alimento e por tudo aquilo em que ele pode se transformar. Somente leiam e se deliciem. Me contem depois o que acharam.

Ficha técnica:

Título: Sangue, Ossos e Manteiga: A Educação Involuntária de Uma Chef Relutante
Titulo Original: Blood, Bones and Butter: The Inadvertent Education of a Reluctant Chef
Autor: Gabrielle Hamilton/ Tradução Lucas Murtinho
Editora: Rocco
Número de Páginas: 377

Até a próxima!

About Nicole Delucca Linhares

Uma jornalista obcecada pelo lado bom da vida que está sempre em busca de experiências românticas para dividir com o mundo. Apaixonada por comidinhas, pores-do-sol, plantas, livros, cinema, viagens e teatro. É também professora de italiano, cozinheira para todas as horas, filosofa de boteco e, por fim, uma mistura doida de Minas, Itália e Piauí!

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