Programa Cultural Romântico: Jean-Michel Basquiat no CCBB-BH

Programa Cultural Romântico

Estão lembrados daquela postagem em que dou a dica de Cinco Passeios Românticos em BH? Pois é, um deles é a Praça da Liberdade. Assim, pegando esse gancho, hoje darei uma dica de programa cultural para vocês fazerem a dois. É a exposição Jean-Michel Basquiat: Obras da Coleção Mugrabi no Centro Cultural do Banco do Brasil -BH que integra o Circuito Cultural da Praça da Liberdade. A mostra começou dia 14 de julho e fica em cartaz até o dia 24 de setembro. Estive lá e vou contar tudinho para vocês aqui! Vamos lá?

Programa cultural a dois

Em primeiro lugar, vamos combinar: é sempre bom sair da rotina quando o assunto são programas românticos, não acham? Um bom programa cultural é certamente uma ótima pedida a dois! Além disso, a nossa bela BH já há algum tempo tem recebido excelentes mostras de arte. Portanto, nada mais justo do que as prestigiarmos.

Em segundo lugar, antes de falar de Basquiat, eu gostaria de ressaltar um fato: O Centro Cultural do Banco do Brasil já é por si só um lugar romântico. Não acreditam em mim? Então visitem lá e me digam se ele é ou não é digno de figurar em um programa cultual a dois, independentemente da exposição que estiverem hospedando.

A dica de hoje

Mas vamos voltar ao nosso programa cultural? Antes de mais nada, um aviso aos navegantes: a indicação de hoje não é pouca coisa não: Jean-Michel Basquiat foi um dos maiores artistas plásticos norte-americanos do século XX. Além disso, este programa cultural merece a nossa atenção porque esta é a maior exposição de Basquiat realizada até hoje na América Latina. O acervo ao qual temos acesso no CCBB contempla mais de 80 trabalhos do artista entre desenhos, quadros, colagens e porcelanas da coleção particular da família Mugrabi de Nova Iorque.

45 pratos de cerâmica trabalhados com pincéis de projetores – 1983/84

Ao visitar a mostra, impressionou-me sobretudo a constatação do quanto o artista e sua obra continuam atuais, apesar dele ter obviamente sido fruto do seu tempo. Basquiat morreu há 30 anos e ainda assim inegavelmente os seus discursos político e social continuam mais atuais do que nunca. Além disso, a sua capacidade de dialogar com diversas técnicas, linguagens artísticas e mídias, sem dúvida alguma faz com que a sua arte tenha muito a nos dizer na atualidade.

A linguiça do irmão – 1983

A exposição já passou por São Paulo, Brasília e agora fica em BH até dia 24 de setembro. Por fim, ela segue para o Rio de Janeiro, onde fica de 12 de outubro a janeiro de 2019.  A mostra é uma ação conjunta entre o Banco do Brasil e a produtora Art Unlimited. Foram necessários dois anos de negociações para que ela pudesse acontecer nas quatro unidades dos Centros Culturais do Banco do Brasil. A sua curadoria é do holandês Pieter Tjabbes. Neste vídeo abaixo ele conta um pouquinho sobre a mostra:

O artista

Vocês sabem que o Lugares Românticos, afinal, também é cultura, né? É que eu, Nicole, não me seguro: Sou apaixonada por arte. Então, trarei a vocês nas próximas linhas um tempero especial para esse programa cultural: falarei sobre Basquiat. Quem sabe assim não ajudo alguns de vocês, talvez menos antenados nas artes, a aproveitarem ainda mais esse passeio? E para aqueles que assim como eu conhecem um pouco mais a trajetória de Basquiat, vamos lá! Sei que vocês não precisarão ser convencidos a colocar esse programa cultural na agenda, mas nas linhas abaixo contarei um pouco do que vocês verão na mostra. Preparados?

A carreira de Basquiat foi meteórica. A sua produção se deu entre os anos de 1970 e 1980. Ele morreu em 1988, aos 27 anos, vítima de uma overdose. Isso aconteceu um ano após a morte de Andy Wahrol, importantíssimo expoente da Pop Art, amigo, influenciador e parceiro artístico de Basquiat. Dizem que logo após a perda do amigo, o artista ficou desolado e passou assim a preocupar ainda mais as pessoas próximas a ele com seus excessos no consumo de drogas.

Andy Warhol e Basquiat. Reprodução da Foto de 1985 feita pelo fotógrafo Michael Halsband

Versatilidade

Dizem que mentes brilhantes tendem a ser inquietas, não é mesmo? Com Basquiat não foi diferente. Ele tinha uma personalidade irrequieta, extremamente criativa e versátil. Em 1978 ele abandonou a escola faltando somente um ano para se formar. Ele então saiu de casa e passou a morar com amigos sobrevivendo apenas da venda de camisetas e postais na rua.

Assim como na vida, este frenesi estava também presente em sua arte. Seus amigos frequentemente o colocavam para fora de casa por causa de sua verve artística. Basquiat não tinha limites: Quando a inspiração chegava ele pintava paredes, portas, janelas e tudo mais que lhe surgisse na frente.

Ele pintava, escrevia, esculpia, tinha uma banda musical, atuou em um filme… Em outras palavras: ele tinha urgência para se expressar e o fazia de todas as formas possíveis. Como artista plástico ele mesclava linguagens. Deste modo, ele fazia uso de colagens, cópias reprográficas, palavras, imagens da anatomia humana e tudo mais que lhe parecesse inspirador.

Natchez – 1985 – Este trabalho ilustra bem essa variedade de técnicas e materiais. Esta obra consiste em compensados colocados em portas de madeira trabalhados com xerox coloridos e pintura acrílica.

Intertextualidade

Basquiat dizia que não recebia créditos por aquilo que retratava porque as coisas já existiam antes dele. Suas fontes de inspiração e seus objetos de admiração são presenças constantes e fáceis de serem identificadas em suas obras.

Neste emaranhado de intertextualidade encontramos o Jazz, o Hip Hop, os atletas negros que ele admirava bem como também os filmes de Hitchcock, a pintura de Picasso, o Grafite, e seu grande interesse pelo corpo humano.

Série “Anatomy” – 1982 – Screen Print on arches 88 – Esta série mostra a fascinação do artista pela anatomia humana. Quando criança, se recuperando de um acidente, leu o livro “Grey’s Anatomy” e assim começou o seu interesse pelo assunto que aparece ainda em muitos de seus trabalhos.

Tjabbes explica que Basquiat foi uma “personificação das transformações da sua cidade nas décadas de 1970 e 1980”. O curador sublinha ainda que as suas obras “refletem os ritmos, os sons e a vida urbana nova-iorquina, sintetizando assim os discursos artístico, musical, literário e político”.

Um artista negro

Quando Basquiat levantou a voz e chamou atenção do mundo para a sua arte, ele era uma raridade no meio. Baquiat era negro, filho de um haitiano com uma descendente de porto-riquenhos. Ele cresceu no Brooklyn, em Nova Iorque. Sua mãe o incentivava nas artes e durante a sua infância o levava aos vários museus de Nova Iorque. Foi assim de maneira autodidata que ele completou sua formação artística.

Amargurado – 1986

Por ser negro vocês devem imaginar que sem sombra de dúvidas ele foi vítima de racismo ao longo da vida. Naturalmente este fato moldou sua personalidade crítica como artista. Em um mundo cheio de preconceitos, sobretudo em uma Nova Iorque que lidava com seus sérios problemas de criminalidade e desigualdade social, Basquiat quis ser uma voz contra a discriminação. Dessa forma, ele fez questão de colocar em sua arte a negritude, as dificuldades e traumas vividos pelos negros dos Estados Unidos.

Preto – 1986

Retrospectiva de Jean-Michel Basquiat

E ai? Estão gostando deste passeio pelo mundo de Basquiat? Esse programa cultural já está na agenda de vocês para os próximos dias? Espero que sim. Mas devo alertar: caso se decidam por esse passeio, nada de ir com o tempo contado. Como eu disse lá em cima, a mostra é bem grande. São mais de 80 obras de Basquiat e mais algumas de artistas que prestaram um tributo ao nova-iorquino.

O legal de ir com tempo é que vocês poderão caminhar calmamente entre as salas lendo os quadros explicativos. Entre todo esse acervo da Coleção Mugrabi estão trabalhos que vão dos primórdios da carreira do artista até o seu último ano de vida. Sendo assim, oportunidade única para vocês terem contato com uma bela retrospectiva da obra de Basquiat.

Leituras e releituras

Logo na entrada foi montada uma sala com um tributo a Basquiat. São obras de artistas que leram o nova-iorquino e o tiveram como ponto de referência para o seu trabalho. Aqui estão algumas fotos que fiz neste ambiente.

As fases da obra de Basquiat

Logo após essa homenagem, começamos a mergulhar no universo de Basquiat. Um bom modo para nos guiarmos ao longo dessa experiência artística é nos conduzirmos cronologicamente, passando assim pelas três fases da sua carreira. As obras da sua primeira fase foram concebidas entre os anos de 1976 e 1979. Aqui é o início da sua vida artística nas paredes de Downtown Manhattan e do Metrô de Nova Iorque. A marca deste momento é uma TAG compartilhada com seu amigo Al Diaz: SAMO, que significa Same Old Shit – a mesma merda de sempre.

Na foto, pichação em um muro. Foto de Henry Flynt, 1979.

Outro ponto interessante deste início de trajetória são os desenhos de Basquiat. Neste primeiro momento eles eram menos valorizados pelos merchands de arte. Portanto, receberam menos pressão tanto da crítica quanto do mercado. Isso permite que hoje façamos através deles uma leitura mais independente do projeto artístico do nova-iorquino que afirmava veementemente que sabia desenhar, mas que lutava bravamente contra isso.

Fase dois – auge da sua produção

A segunda fase da carreira de Basquiat aconteceu entre os anos 1980 e 1982. Ela é considerada o auge da sua produção. Muitos de seus trabalhos deste período foram pintados em portas, esquadrias de janelas e peças de madeira que ele achava pelas ruas. Sua carreira como artista plástico foi alavancada sobretudo com a sua primeira exposição solo na galeria de Annina Nosei. Aqui ele ganhou visibilidade internacional e recebeu vários elogios da crítica estrangeira.

The field Next to the other road (O campo próximo à outra estrada) – 1981

Esses foram também os anos em que o caráter multifacetado do artista aflorou. Ele se aventurou como músico na banda Test Pattern, que posteriormente foi rebatizada como Gray. Entre nomes ilustres que acompanharam o artista nessa incursão musical está nada mais nada menos do que o então futuro cineasta Vincent Gallo.

É desta época ainda a sua participação no filme Downtown’81. O longa foi escrito por Glenn O’Brien e dirigido por Edo Bertoglio. Aqui, além de atuar, Basquiat também cuidou da produção musical. Estão lembrados de que eu disse que esse programa cultural merece ser feito com tempo? Pois é: o filme está sendo exibido em uma das salas da exposição. Então nada de pressa! Respirem fundo, sentem-se nos banquinhos da sala escura e curtam o filme. A trilha sonora dele é muito bacana! Abaixo aqui uma canjinha para vocês:

Terceira fase: Parceria com Andy Warhol

Nesta terceira e última fase de sua trajetória artística, Basquiat já é um artista celebrado, disputado por galerias e com frequentes exposições internacionais. Um belo destaque deste momento é a fecunda parceria entre ele e Andy Warhol. Eles se conheceram em 1982 e tornaram-se amigos. Nos anos seguintes produziram juntos centenas de quadros. Aqui em BH poderemos ver quatro obras desta parceria: Heart Attack, de 1984, Two Dogs (1984), Thin Lips (1984/85) e Eggs (1985).

Obra de 1984 feita por Basquiat em parceria com Andy Warhol: “Heart Attack” – Ataque do Coração.

Two Dogs – 1984

Thin Lips – 1984/85

Eggs (Ovos) 1985

E então, pessoal: Curtiram essa dica de programa cultural? Ir a uma exposição de arte vai ser o próximo programa romântico de vocês? Eu espero que sim, afinal de contas a arte é uma das formas mais genuínas de se sentir a vida pulsar. Portanto, para mim, fazer isso a dois é sobretudo uma experiência romântica digna de ser dividida com alguém muito especial.

Ainda um último suspiro neste programa cultural a dois

Para não dizer que não fechei esse post com chave de ouro, sei que depois de muita arte ainda há espaço para mais romance. Sendo assim, depois de tanto passear pelos corredores do CCBB, deem uma passadinha no Café Com Letras. Estão lembrados que já dei essa dica por aqui?  Se vocês derem sorte pegarão algum show legal por lá. Mas mesmo que não haja nenhuma apresentação, aproveitem a atmosfera romântica do café. O lugar é lindo do mesmo modo e vocês poderão colocar a conversa em dia, além é claro, de namorar bastante. Indico fortemente o capuccino gelado, um bom vinho e os arancini de lá. O cardápio contempla ainda saladinhas deliciosas, pratos e petiscos para dividir.

Por fim, pessoal, antes de me despedir gostaria de fazer um pedido: sinalizem para mim se esse tipo de conteúdo toca o coração de vocês como toca o meu. Vocês não fazem ideia do quanto é importante para mim saber se vocês estão gostando dos temas que publico aqui. Ficamos assim então?

Serviço

O CCBB-BH abre de quarta a segunda das 9h às 21h. Terça ele está fechado.

O endereço de lá é Praça da Liberdade 450.

O telefone para informações é (31) 3431-9400

Até a próxima!

About Nicole Delucca Linhares

Uma jornalista obcecada pelo lado bom da vida que está sempre em busca de experiências românticas para dividir com o mundo. Apaixonada por comidinhas, pores-do-sol, plantas, livros, cinema, viagens e teatro. É também professora de italiano, cozinheira para todas as horas, filosofa de boteco e, por fim, uma mistura doida de Minas, Itália e Piauí!

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