Dia dos Namorados em Casa: Spaghetti alla Puttanesca – Prato Principal

Puttanesca

E então, pessoal? Curtiram a receitinha do Tiramisu que sugeri aqui para sobremesa desse menu romântico de três tempos? Hoje darei a sugestão para o prato principal. Pois é, pensei em mil coisas aqui: Carne vermelha? Um peixe? Um risoto? Opções vegetarianas? Depois reconsiderei tudo. É que em um dia assim o ideal mesmo é não ter trabalho demais, concordam? É preciso ter uma receitinha fácil, cheirosa, gostosa que possa ser preparada junto e que não nos faça sofrer na cozinha. Depois de repassar as várias opções coringa que tenho em meu repertório, lembrei-me dos deliciosos e aromáticos Spaghetti alla Puttanesca!

Tecnicamente este prato é aquilo que os italianos chamam de primo piatto (primeiro prato). Ele é mais leve e vem logo após as entradas. Depois dele geralmente é servida alguma proteína, no caso o secondo piatto. No entanto, como de noite não gosto de nada pesado, em um menu de três tempos eu considero uma massa como essa um piatto unico. Sempre tenho a Puttanesca na manga quando quero fazer uma surpresa sem ter trabalho demais. E acreditem: sempre surpreendo!

Puttanesca: Do Sul da Itália para o Mundo

Vocês já devem estar pensando ai: Vixi! lá vem a Nicole contando histórias! Mas é que para mim esses relatos e lendas são temperos tão especiais para as receitinhas. A gastronomia fala muito sobre aquilo que passa nos corações das pessoas. Ela descreve costumes, define geograficamente regiões em função dos seus ingredientes e dos métodos utilizados para cozinhar. A culinária é um reflexo do que somos não só como pessoas, mas também como povo. Então, sim, conto histórias. Gosto de fazer com que vocês não só reproduzam as receitas em casa, mas também sintam ao menos um pouquinho aquilo que elas significam.

O Lácio clama para si a invenção do prato, mas a tradição o coloca na Campânia, mais especificamente na ilha de Ischia, no Golfo de Nápoles

A Puttanesca

Pois é, a palavra vem disso mesmo que vocês estão pensando (risos)! A gente conhece esse molho com esse nome porque tudo o que é polêmico é mais gostoso. Nesse caso literalmente, porque esse é um dos molhos mais saborosos que conheço! No entanto, essa receitinha tem também outros nomes. Em alguns lugares ela é conhecida como Marinara. Em Nápoles ela é chamada de Aulive e Cchiapparielle, fazendo alusão, em dialeto, a dois de seus ingredientes: as azeitonas pretas e as alcaparras. Mas por que chamar esse molho de Puttanesca? Há lendas e histórias recheadas de detalhes picantes como o seu sabor. Mas certeza mesmo ninguém tem.

Um dos relatos mais comuns é que esse era um prato frequente em casas de tolerância no sul da Itália. A razão para a suposta escolha deste prato para compor o menu de tais lugares seria o fato de o molho ser muito cheiroso, colorido e rápido de preparar. Há também quem faça referência à indumentária usada pelas moças que trabalham nestes locais: cores vistosas. Dizem que todas essas cores que desfilavam pelos corredores desses locais seriam os mesmos presentes neste belo molho. O vermelho dos tomates e da pimenta, o verde da salsinha, o roxo das azeitonas pretas e o cinza esverdeado das alcaparras.

Au Salon de la rue des Moulins, de Henri de Toulouse-Lautrec – fim do século XIX

Existe também uma lenda que gira em torno de uma prostituta chamada Yvette la Francese. Ela supostamente preparava este molho para guarnecer massas inspirada em suas origens provençais. Dizem que ela o teria batizado com esse nome munida de bom humor e ironia para homenagear a profissão mais antiga do mundo.

Una Puttanata qualsiasi

Outras histórias atribuem o nome a um pintor chamado Eduardo Colucci, nascido na ilha de Ischia, no golfo de Nápoles. Ninguém sabe exatamente o porque. Há também quem diga que este molho era muito preparado por uma senhora casada não muito fiel ao marido, que passava as tardes a se divertir com um amante e chegava sempre atrasada para preparar o jantar. Como a receita é rápida e saborosa, ela era a tábua de salvação! Mas para mim, a história mais divertida de todas não tem absolutamente nada a ver com zonas boêmias, mulheres da vida ou esposas infiéis.

Alcaparras

Dizem que esse molho surgiu lá pelos idos dos anos de 1950 pelas mãos do arquiteto e chef de cozinha Sandro Petti no restaurante Rancio Fellone na ilha de Ischia. Diz a lenda que um belo dia já era tarde e o restaurante estava para fechar quando um grupo de amigos famintos se sentou à mesa. A comida tinha acabado e Sandro avisou aos recém chegados que não teria como atendê-los. Mas, os clientes não estavam dispostos a irem embora sem antes comerem alguma coisa. Então, insistiram com Sandro, segundo a lenda, com exatamente essas palavras: “Ma dai, Sandro! È tardi e abbiamo fame. Facci una puttanata qualsiasi” (Mas Sandro, já é tarde e estamos com fome. Faça uma bobagem qualquer ai!).

Salsinha fresca

Evitei usar um palavrão para traduzir puttanata. Mas se vocês quiserem podem escolher ai o nome feio para colocar no lugar de “bobagem” (risos). Diante disso, Sandro se virou com produtos frescos da horta e com aquilo que ainda tinha na despensa. A “Puttanata Qualsiasi” acabou se revelando um prato maravilhoso que ganhou fama nos restaurantes de Ischia e caiu no gosto do mundo sob o nome de Puttanesca, já que ele era una puttanata (risos).

Vamos à Receita!

Não me levem a mal, hem! Não estou dizendo que vocês devem numa data tão especial cozinhar uma coisa qualquer! Pelo contrário! A culinária na qual acredito é a simples baseada em ingredientes de boa qualidade e procedência. A culinária mediterrânea é extremamente aromática, portanto basta que coloquemos poucos ingredientes juntos para inundarmos a casa com cheirinho de bem-querência. Essa puttanata é para mim muito especial e espero que ela seja um sucesso para vocês também. E ah! Caso sejam vegetarianos ou veganos, basta cortar as anchovas da receita.

Anchovas conservadas em sal

Ingredientes

  • 350g de espaguetes de boa qualidade (grão duro)
  • 1 lata de tomates sem pele ou 400g de tomates frescos maduros e sem pele picados
  • 2 dentes de alho triturados
  • 4 anchovas ou alici em conserva (não tenham medo do sabor. Fica bom demais, eu garanto!)
  • 100g de azeitonas pretas. Caso encontrem as azeitonas pretas de Gaeta em alguma importadora, elas são perfeitas e as tipicamente utilizadas na receita.

Azeitonas pretas

  • 1 colher de sopa bem cheia de alcaparras
  • 1 pimenta dedo de moça picadinha sem sementes (eu tiro, mas se vocês quiserem que arda muito deixem as sementes)
  • Sal a gosto
  • Azeite de oliva extravirgem suficiente para refogar os ingredientes
  • Salsinha picada a gosto
  • Orégano fresco ou seco a gosto (coloco só um pouquinho)

Preparo

  • Coloquem a massa para cozinhar em água salgada. Geralmente o tempo de cozimento da massa al dente não chega a 10 minutos. Mas entre o tempo da água começar a ferver e vocês juntarem a massa será o tempo de o molho ficar pronto.
  • Escorram as anchovas e piquem-nas bem pequenininhas. A ideia é que elas desapareçam no meio do molho.
  • Retirem os caroços das azeitonas e piquem-nas.
  • Escorram as alcaparras e piquem-nas grosseiramente.
  • Em uma panela grande o suficiente para a finalização do prato, coloquem o azeite de oliva junto do alho, da pimenta e das anchovas. Deixem refogar por alguns minutos até que as anchovas tenham desaparecido no refogado.

  • Juntem os tomates. Deixem cozinhar até que eles tenham se desfeito e o molho reduza um pouco.
  • Acrescentem as azeitonas e as alcaparras.
  • Adicionem o orégano e a salsinha, mas guardem um pouco desta última para decorar o prato no final.
  • Acertem o sal.
  • Escorram o macarrão al dente e juntem-no ao molho ainda na panela. Misturem bem, e pronto: a Puttanesca está perfeita para servir!

Finalizando 

Enquanto estiverem cozinhando vocês verão que essa puttanata qualsiasi é uma das coisas mais cheirosas e saborosas que vocês já experimentaram! Dizem que a Puttanesca, assim como o Tiramisu, tem efeitos afrodisíacos. Eu não tenho ideia se isso é verdade. Acho mesmo que o que faz com que a gente se apaixone por esse prato seja realmente a sua simplicidade junto da explosão de cheiros e sabores. Tudo isso aliado ao fato de estarmos cozinhando para alguém que a gente ama é a mistura perfeita para uma noite romântica.

Para deixar o prato ainda mais especial minha dica é que vocês estejam bebendo um vinho bem gostoso. A Puttanesca fica muito gostosa com um vinho tinto bem jovem, frutado e de taninos macios. Não sou especialista em vinhos, então podem me bater se não gostarem das dicas, mas lá no sul da Itália eles produzem alguns vinhos tintos nessa linha de taninos macios que ficam muito bons com essa massa. Na terra da Puttanesca, a Campania, tem o Piedirosso. Na Calábria o Cirò Rosso e na Sicilia tem o Etna Rosso.

Prefiram vinhos de taninos macios, mais frutados

Seja como for ou com qual vinho for, espero que a noite de vocês seja mágica! E aguardem que na segunda colocarei aqui a minha dica de entrada para finalizar as dicas para esse jantar romântico de dia dos namorados!

Sabe aquele molho que sobra no prato? É uma delícia comê-lo com pão! Se vocês gostarem coloquem queijo ralado. Mas ele não é item obrigatório e nem tão necessário assim.

Até a próxima!

About Nicole Delucca Linhares

Uma jornalista obcecada pelo lado bom da vida que está sempre em busca de experiências românticas para dividir com o mundo. Apaixonada por comidinhas, pores-do-sol, plantas, livros, cinema, viagens e teatro. É também professora de italiano, cozinheira para todas as horas, filosofa de boteco e, por fim, uma mistura doida de Minas, Itália e Piauí!

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